É tão chato crescer?

Canal : Cinema Falado em 21.jul, 2009

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Um dia tentei lembrar quando tinha deixado de ser criança. Aquela sensação de euforia, embriagues, o gosto de ocre na boca, o leve embrulhar no estômago, as mãos suadas, o quentura nas bochechas, os olhos ávidos e fixos no novo, o inesperado, o fantástico, o desconhecido quando é revelado diante de nós. Buscava me lembrar quando tinha sido a última vez que Peter Pan tinha vindo me visitar. São raras as vezes que isso acontece depois que se perde a inocência, e acreditem, quase nunca acontece depois dos trinta. Acho que Peter não gosta muito de adultos.

Ao terminar Harry Potter e o Enigma do Príncipe fiquei me perguntado, o que terá acontecido comigo? O que terá acontecido com Harry Potter? E com J.K. Rowlings? E os diretores? Roteristas e produtores? E os mais de 400 milhões de aficcionados pelo o universo de Harry? Será que nossa Wendy cresceu, casou, teve filhos e agora é uma dona de casa? Sim, não temos dúvidas, eu cresci, Harry cresceu e com ele toda uma geração de novos jovens e de velhos jovens que se maravilharam com suas estórias. Aquele pequeno garoto que começou a descobrir que era um bruxo e foi estudar em Hogwarts, uma escola situada em um universo de fantasias… ficou adolescente e está quase adulto. Mas será que ser adolescente é tão chato? Será que virar adulto é tão tedioso? Que nossa estória de vida se tranforma em uma narrativa arrastada, pesada, chata onde nada acontece, onde acontecimentos nos levam a lugar nenhum; ou vivemos alguns momentos sem nexo apenas para complementar lacunas de nossas vidas? Será que amigos dormem e roncam ao nosso lado quando contamos algumas de nossas estórias? Será que perdemos ou não sabemos o objetivo principal dos nossos atos? Pois é, o Enigma do Príncipe continua um enigma. Nada a mim foi revelado, todas as lembranças e respostas continuam presas na pequena coleção de frascos de Dumbledore guardada em seu aposento.

Mas descobri uma coisa. O chato não é crescer. O chato, é deixar que o nosso espírito de Peter Pan se sinta seduzido pelos prazeres da vida adulta e queira abandonar por definitivo a Terra do Nunca. Se isso acontecer, o que será das boas estórias? Ficarão elas presas no mar gelado, como o velho galeão do Capitão Gancho, esperando Peter Pan voltar e devolver a Terra do Nunca toda energia e alegria do espírito de ser criança?

Por Luiz Carrera


1 Comentário

  • Marco Antônio de Almeida Dantas

    Quando as pessoas crescem na idade, também crescem nas experiências e personalidade. Passam a ter outro estilo de vida, a buscar sua estabilidade emocional e social. Mas o que muitas esquecem é que o emocional as vezes não
    “cresce”, e sim amadurece, e amadurecer é perceber que nunca você vai crescer, que precisamos das nossas lembranças, das nossas inocências de infância para sentirmos vivos. Como o diz o verso de Oscar Wilde, “Não quero amigos adultos nem chatos; Quero-os metade infância, metade velhice; Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; E velhos, para que nunca tenham pressa.”
    Quanto a Harry, muitas pessoas cresceram lendo os livros e assistindo as aventuras do bruxo, portanto, não deixa de fazer parte da vida dessas pessoas. Por isso, no último livro/filme, Harry pode ter se tornado um adolescente bem crescido, tanto nas suas atitudes, quanto na sua vida social, mas a magia e o primeiro amor, trazem o efeito juvenil que esteve presente em todos os seus livros. Por isso acho que Harry Potter e suas aventuras sempre será uma história adolescente, atigindo, na maioria, o próprio público teen. Mas não podemos esquecer que ele foi criado por uma mulher que teve uma infância nada aproveitada, com a ausência de seu pai, sua mãe doente e uma vida difícil, onde suas inseguranças e tristezas foram tranformadas em uma das histórias mais lidas que recrutou milhões de fãs. Portanto, Harry não deixa de ser uma história para os adultos.

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